Fi-lândia

Esperança

Como naquela noite eu desci a rua até a porta de cerejeira enorme de um apartamento. O meu evidente apartamento. Entrei. O cheiro do Morfeu deformando as janelas, o sofá e a mesa, a cama, os lençóis desarrumados, a escuridão. Eu entrei, bati a porta e me afoguei na cadeira da mesa de jantar. Todas as cartas, todas as fotografias, todas as lembranças espalhadas pela mesa, pelo chão, por cada canto e espaço do enorme apartamento.

Acendi a lareira, o frio castigava o espaço. O fogo flamejava laranja brilhante, dando um contraste feroz ao apartamento escuro e cheio de odor. Não posso dizer que isso me incomodasse. Sorri um riso lunático, louco, zombeteiro. Ria da minha desgraça. Encostei-me à lareira. Peguei meu copo cheio de vinho caro - eu podia comprar quantos quisesse - bebi todo o liquido vermelho escuro e apertei com força o copo em minhas mãos. Cacos se espalharam pelo chão e sangue insípido escorria por entre meus dedos.

Olhei para dentro da minha alma. Lembrei da loucura ao vê-lo sair pela porta. E não voltar. Lembrei das noites correndo um mar de covas procurando o meu fantasma. Lembrei da promessa que fiz em meu francês ruim: ofereci-te a vida, a alma e a eternidade.

Desci meus joelhos em direção aos cacos de vidro. Cachoeira escorria pela minha cabeça e gritos selvagens saiam de minha garganta pedindo para que ele voltasse. Pedindo para que ele não me deixasse. Inútil! Tudo era tão inútil! Almas não voltariam para me salvar. Um manto branco cobria o lado de fora de minha janela e para dentro dela um manto negro cobria todo o espaço onde eu existia. Viver era pedir de mais. Ninguém vivia ali no apartamento. Olhei a minha volta: solidão, tristeza, dor, saudade. Um retrato chamou-me a atenção. Em meu desespero nunca o havia visto.

Fui até ele, suja de sangue, descabelada, doida. Era uma foto de nós dois, abraçados, sorrindo, nos olhando profunda e amorosamente. Eu me lembrava da fotografia.  Assinada com o nome dele. Não, ele nunca assinou a foto. Tirei-a do retrato e olhei seu verso:

"Esqueça as horas que às vezes mataram com sopros de porque coração de felicidade. Não me deixe não me deixe. Eu vou te oferecer pérolas de chuvas que vem dos países onde não chove. Eu cavei a terra até minha morte para cobrir seu corpo de ouro e luzes. Eu criei uma terra onde o amor é rei, onde o amor é lei e você é rainha. Eu inventei palavras sem sentido que você compreenderá. Eu me esconderei lá para te contemplar a dançar e a sorrir e para te ouvir cantar então rir. Deixe-me que eu me torne a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão. Espere que eu esteja ai esta noite, para te levar ao seu altar. Assinado: Amor."

Lida a mensagem deitei no tapete, odiava aquela brincadeira. Era o fantasma que vinha me assombrar. Derramei a garrafa de vinho e chupei do chão seu liquido que cobria todo o tapete. Uma sombra se projetou acima de mim. Virei-me para observá-la. Era ele, de um verde escuro brilhando como uma esmeralda, coberto por esse manto floresta. A sombra esticou a mão para mim e como em passo de bruxaria era eu novamente, restaurada. Ardente soco colidiu em minha cabeça e descia ao chão.

Acordei em uma terra que nunca vi, nunca ouvi ou imaginei. Chovia a chuva de países onde não chove meu corpo coberto de ouro, de luzes, onde o Amor era rei, o amor era lei e eu era Rainha, nós entediamos as palavras sem sentido, o Amor me contemplava, era a minha sombra. Nossos tronos eram vermelhos diamantes, como sangue. O sangue do meu coração, o sangue que eu derramei. Eu levantei e andei em direção ao meu Amor, ao meu trono. Estávamos mortos. No paraíso. A chama dentro de mim queimava cada milímetro do meu corpo. Um beijo calou nossas bocas. No inferno.

Por: Fillipa.



- Postado por quem? Fih Quando? 14h46
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