Fi-lândia

“Em sua plenitude, sua divina expressão. Movida pela fé que consome seu corpo, cada veia de sua alma mortal, seu ser. Amando tudo e amando a todos.”

Srtª Cleyborne, Jéssica.

“Rosas e notas”

Naquele dia, estive prestes a entrar em um colapso nervoso. O piano encontrava-se a minha frente onde eu acabara de sentar no banquinho de mogno e estofado magenta. Na parte superior do baú havia um grande vaso de cristal, com seis lindas rosas Scarlet Carson. Três janelas a minha esquerda abriam passagem aos raios quentes de sol. Raios dourados e tranqüilos.

A partitura encontrava-seno suporte, limpa e nova. Introdução de notas fáceis e extremamente alegres, acompanhada de acordes incríveis com uma imensurável magnitude. G bemol, Lá maior, C’s sustenidos, Fá e tantos outros. Sons que forneciam a imaginação, verdadeiros cenários mágicos, divinais. Uma música que com toda a certeza levaria qualquer alma a entorpecer-se de felicidade.

Acompanhei a partitura, passada a introdução, o desenvolver dos sons e a habituação da melodia. Segui lendo, ouvindo e dançando meus dedos pela teclas alvas e negras. A música tornou-se difícil e as janelas permitiram que as brisas frias beijassem meus cabelos, minhas folhas e minhas rosas. Com as fortes lambidas do vento uma de minhas rosas caiu sobre minha mão, a mais vistosa de todas elas. Eu perdia aos poucos a inspiração. Foi essa rosa especial que me ajudou a recuperar o tom inicial e o fluxo de energia que movia meus sentimentos, tornando-me capaz de prosseguir em minhas notas.

Entretanto os acordes perderam lugar e passei a cuidar apenas da melodia e mais nada. O tempo piorou. Rios de gotas cristalinas atravessavam as janelas, enquanto a rosa acompanhava-me. A chuva tomou ódio por minhas letras, minhas rosas, e folhas. A rosa presente em meus dedos e minhas teclas começou a conduzir a música melhor do que eu poderia imaginar, involuntariamente. Eu a queria ali. Queria que ela permanecesse ali.

Cheguei à metade da música e parecia que a rosa passava a criar espinhos. E de minha alma sangue escorria sem eu nem mesmo saber o porquê. A chuva fez com que os vidros das janelas colidissem uns com os outros e com a parede, todas as minhas rosas caíram no chão, menos o vaso. E eu nem havia percebido. Só preocupava-me com a melodia e com a rosa especial. Mas doíam-me as mãos. E com o passar dos minutos a chuva cessara.

Do lado de fora da sala havia calma e uma nevoa cinza, filha da tormenta, cobria o céu. Nada se via. O mundo fora engolido pela sombra, pelo fim. Sentia-me tensa. As notas ficaram maiores e mais fortes. Todas as notas misturaram-se. Acordes, notas, melodias, tudo junto, tudo envolto em minhas mãos. Meus dedos corriam, trombavam-se em um delírio profano. Lagrimas saiam de meus olhos. Os espinhos da rosa feriam-me as mãos. A rispidez de suas pétalas me mutilava, estraçalhando minha pele. O vento pavoroso entrava pelas janelas e faziam da sala um lugar terrível de se respirar ou vive. Ataquei tudo ao chão. A partitura, a rosa, minhas lagrimas. Tudo voava, o chão parecia sugar-me. Cheguei ao grande com plenitude e ritmo.

Relaxei a cabeça e os ombros, olhei ao redor do piano e de meu banquinho. Ao chão, espalhados, folhas, rosas vermelhas e notas. E minha alma, em pedaços. Ajoelhei-me e tudo recolhi, menos as rosas. O céu dava sinais de melhora. Chorei. Chorei por estar destruída. Observei que as rosas vermelhas estavam separadas da rosa especial. Com toda a delicadeza do universo coloquei uma a uma de volta ao vaso de cristal. Menos a rosa especial.

Sentei-me novamente em frente ao piano. O céu clareava a copa das arvores da vizinha. Dediquei minhas notas finais as minhas rosas e utilizei meus mais belos acordes. Meus dedos escorriam pelas teclas de forma sublime e natural. Eu estava feliz, quase completa. Terminei a música de forma lenta e silenciosa. Perfeita.

Passou pelas três janelas o brilho de um arco-íris. Levantei-me admirando minhas rosas vermelhas. Amo-as!

Dei alguns passos e tomei nas mãos à rosa especial, coloquei-a ao lado do vaso de cristal. Algum dia eu a homenagearia com uma de minhas músicas favoritas. Sai.

Na sala agora tranqüila ficou minha música, meu vaso com cinco rosas Scarlet Carson, meu banquinho de mogno e estofado magenta, minhas três janelas e uma esperaça. Fim.

PS: Dedico o texto a meus anjos terrenos. Amo vocês!

PPS: Texto por mim.



- Postado por quem? Fih Quando? 21h54
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